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terça-feira, 2 de março de 2010

Revelações científicas do livro de Jó


Colaboração: Caramuru Afonso Francisco
Um dos mais antigos textos do Velho Testamento já antecipava, em forma de poesia, descobertas que a ciência só veio a fazer no século 20 - entre elas o processo de formação dos planetas do sistema solar

ROBERTO C. G. CASTRO

Jó não é um livro sobre ciência. Um dos mais antigos textos do Velho Testamento - cujo autor pode ter sido contemporâneo do patriarca Abraão, que viveu há quase 4 mil anos -, ele relata a história de um homem rico e piedoso que, fustigado pelo diabo, perdeu tudo o que possuía. Apesar das enormes dificuldades e da censura dos amigos - que viam sua miséria como fruto de uma conduta má -, Jó manteve uma inabalável confiança no Criador, que depois lhe restituiu os bens e a alegria. O livro, portanto, procura fortalecer a fé do leitor, consolar os aflitos e celebrar o cuidado de Deus para com seus filhos. Nada a ver com dados científicos.

No entanto, em certos trechos, o livro faz revelações sobre a natureza que só vieram a ser evidenciadas pela ciência no século 20. A mais surpreendente dessas revelações se encontra no capítulo 38. Ali, os versículos 37 e 38 reproduzem, segundo a Septuaginta - a tradução do Velho Testamento para o grego feita a partir do século 3 antes de Cristo -, palavras do próprio Criador, quando este quer fazer conhecer sua onipotência a
Jó:

Quem é o que enumera as nuvens com sabedoria,

o que inclina o céu para a terra?

A poeira está espalhada como terra.

Colei-o como cubo à pedra.

O mesmo trecho aparece na tradicional tradução de João Ferreira de Almeida - feita a partir do original em hebraico - da seguinte forma:

Quem pode numerar com sabedoria as nuvens?

Ou os odres dos céus, quem os pode despejar

Para que o pó se transforme em massa sólida

E os torrões se apeguem uns aos outros?

Esses versos antecipam a forma como foram criados os planetas do sistema solar, segundo a "teoria da acumulação de partículas", elaborada na década de 1970 pelos cientistas russos Schmidt e Safronov. De acordo com essa teoria, a Terra e os planetas vizinhos se formaram a partir do encontro de partículas rochosas, que se acumularam até dar a eles a forma que têm hoje.

Com o gradativo resfriamento da nuvem de gás e poeira que, nos primórdios do sistema solar, girava em torno do Sol, parte do gás se condensou, transformando-se em partículas sólidas. Em sua órbita, essas partículas - cujo tamanho variava de alguns centímetros até pouco mais de um quilômetro de comprimento - se chocaram bilhões de vezes umas com as outras, formando blocos rochosos cada vez maiores. "Graças à gravidade, os grãos de poeira atraem-se e, ocasionalmente, se encontram. Ao se colarem, dão origem a um grão maior, que atrai outros grãos e, pouco a pouco, engrossa", explicou o cientista francês Claude Allègre, professor da Universidade de Paris VII, em palestra que realizou na USP em abril de 1999, conforme noticiou o Jornal da USP (edição 469, de 26 de abril a 2 de maio de 1999, página 12). Um dos principais geoquímicos da atualidade, Allègre defende a teoria da acumulação de partículas em livros como Introdução a uma história natural - Do big-bang ao desaparecimento do homem, publicado em português pela editora Teorema, de Lisboa.

Como explica Allègre, Schmidt e Safronov demonstraram, através de cálculos simples, que as órbitas quase circulares dos planetas só poderiam se constituir caso esses planetas tivessem se formado por meio da acumulação de pequenos corpos. Se eles tivessem surgido por meio da "derrocada gravitacional" - teoria segundo a qual uma nuvem de gás se contrai sob o efeito da própria massa para dar origem ao planeta -, as órbitas teriam de ser muito elípticas, com várias excentricidades, segundo os cálculos dos cientistas russos. As crateras da Lua são outra evidência da teoria da acumulação: as missões do Projeto Apollo revelaram que elas não são resultado de atividade vulcânica, como parte dos cientistas pensava, mas sim do impacto de projéteis de tamanhos variados.

Há mais indícios da teoria da acumulação, ainda conforme noticiou o Jornal da USP em 1999. A distância que separa os planetas do sistema solar obedece a uma lei, conhecida como Titius-Bode. Segundo essa lei, cada planeta está duas vezes mais afastado do Sol do que o seu vizinho mais próximo. Mas existe uma exceção: entre Marte e Júpiter, ao contrário do que a lei estabelece, não há nenhum planeta. Nesse espaço, encontra-se o chamado "cinturão de asteróides", uma porção de fragmentos sólidos, com comprimento de até 100 quilômetros. Ocorre que, quando dois objetos se aproximam, atraídos pela força da gravidade, suas velocidades aumentam. O encontro se dá com certa violência e pode provocar tanto a união dos corpos - a acumulação - como a fragmentação de ambos, quando não resistem ao impacto. No caso do planeta que deveria existir entre Marte e Júpiter, ocorreu não a acumulação, mas a fragmentação.

A teoria da acumulação constitui, assim, a explicação científica do mesmo processo já descrito poeticamente no antigo livro do Velho Testamento, que declara que o Criador despeja os odres dos céus a fim de que "o pó se transforme em massa sólida e os torrões se apeguem uns aos outros".

"A terra sobre o nada"

Outras idéias só mais tarde reconhecidas pela ciência encontram-se no livro de Jó, como a existência das leis da física, que regem os fenômenos da natureza. O vento, a chuva, as tempestades não agem desordenadamente, mas obedecem a leis naturais, estabelecidas pelo Criador. É o que ensina o capítulo 28, versículos 25 e 26, numa época em que o comportamento dos elementos era explicado pela mitologia e pela religião:

Sob o céu observa toda a terra,

sabedor de todas as coisas na terra que ele fez,

marcos e medidas dos ventos e da água,

enumerou a tempestade e o caminho, vozes no tremor.

Ou, segundo Almeida:

Quando deu peso ao vento e tomou a medida das águas,
quando prescreveu uma lei para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões.

Mais: o autor de Jó sabia que a Terra "paira sobre o nada" (26:7). Até mesmo o ciclo da água - desde a formação do vapor até a queda abundante em forma de chuva sobre o homem - está descrito no livro (36:27-28). Milênios antes de a geologia descobrir que o interior do planeta é formado pelo magma - uma massa de rochas fundidas a altíssima temperatura -, Jó cantava:

Terra, dela sairá o pão,

embaixo ela se revolve como fogo (28:5).

Sendo um livro tão revelador em questões relacionadas à ciência, pode-se suspeitar que Jó expõe verdades também no campo da ética e da teologia. A existência de um Criador "perfeito em sabedoria" (37:16) que "a ninguém despreza" (36:5), a noção de que "há um espírito no homem" e a idéia de que Deus tem "na sua mão todo ser vivente" (12:10) podem ser tão reais quanto o ciclo da água. Mas, sem poder ser submetidos ao crivo dos pesquisadores, esses conceitos deixam de ser uma questão científica. É uma outra história.
Os trechos citados da Septuaginta foram extraídos da edição de Alfred Rahlfs (Stuttgart, 1979). A tradução é nossa, com a necessária orientação do professor Henrique Graciano Murachco, do Departamento de Letras Clássicas da USP.

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